Partindo do princípio de que a inatividade física aliada a maus hábitos alimentares são os principais causadores das doenças crônicas e degenerativas, as quais afetam grande parcela da população mundial e que tal informação já foi massivamente explorada e divulgada, cabe a nós profissionais ligados à saúde pública procurar meios de colocar em prática os conhecimentos adquiridos para reverter a atual situação. No modelo de atendimento tradicionalmente oferecido para o combate e prevenção das doenças, o foco tem sido no individuo, de forma que os tratamentos em geral, consistem de recomendações quanto à prática regular de exercícios físicos, a adoção de um planejamento alimentar, em casos mais extremos prescreve-se o uso de medicamentos ou até mesmo a indicação de cirurgias.
É indiscutível que tais recomendações são de extrema importância e representam o esforço máximo que cada profissional pode dar levando-se em conta o corpo de conhecimentos de cada profissão. Vejo diariamente em meu trabalho a dedicação praticamente altruísta das nutricionistas, elas elaboram os planejamentos alimentares, conversam e aconselham os clientes, fazem as modificações necessárias para que eles fiquem mais confortáveis em seguir as recomendações, tudo isto na esperança de que o individuo siga pelo menos parte do que foi recomendado. E eles seguem? Esta é uma resposta que prefiro deixar em aberto.
Na época em que vivemos, entretanto, não somente a saúde pública tem sido motivo de preocupação mundial, mas também as questões relacionadas ao meio ambiente como o aquecimento global ou os desmatamentos estão sempre em debates, sempre expostas ao grande público como outro motivo para um estado de alerta. O interessante, e é para isto que eu quero chamar a atenção neste artigo, é como estas duas grandes questões de ordem mundial podem se interrelacionar. Como as questões ambientais estão interferindo na saúde coletiva com relação ao crescente número de pessoas acometidas pelas doenças crônicas e degenerativas em especial devido ao sedentarismo e ao excesso de peso corporal.
Vamos atentar para o seguinte: quando pensamos em meio ambiente, normalmente pensamos nas florestas, nos oceanos e nos animais que vivem nestes habitats. Boa parte de nós, seres humanos, temos como habitat as cidades. Sendo assim, o meio ambiente urbano tanto com relação aos espaços físicos quanto às condições sociais pode interferir positiva ou negativamente em nossa saúde. Vejamos alguns estudos realizados com este enfoque.
Em 2001 um estudo realizado nos Estados Unidos concluiu que moradores de bairros antigos, com a maioria das edificações sendo anteriores a 1946, são mais propensos a caminhar com regularidade distâncias maiores que moradores de bairros construídos mais recentemente. Os autores concluíram que isto se deve ao fato de que nos bairros mais velhos as calçadas são mais largas, existe uma mescla de residências e comércio e maior interconexão das ruas.
Em São Francisco, também nos Estados Unidos, um estudo que analisou as características de dois bairros quanto aos aspectos da ocupação do solo e dos serviços de transporte teve como conclusão que os moradores dos bairros com maior variedade de ocupação como: residências, comércio, escolas, feiras, caminhavam com maior freqüência do que os moradores do bairro no qual a ocupação é mais homogênea.
Reid Ewing, um pesquisador norte americano, analisou em 2003 registros de uma pesquisa realizada com 206.992 moradores de diferentes regiões dos Estados Unidos. Neste estudo o tempo gasto com caminhadas nos horários livres foi comparado com o IMC e com diagnóstico de hipertensão. A análise dos dados revelou que os residentes em áreas com maior desenvolvimento urbano caminhavam menos, tinham maior valor de IMC e eram mais propensos a sofre de hipertensão quando comparados aos moradores de bairros mais compactos.
Os meios de transporte são importante fator a serem considerados neste contexto. O cidadão moderno necessita se deslocar com rapidez, desta forma o carro é o meio de transporte mais utilizado, pois saiba que segundo estudo realizado por Frank D. Lawrence em 2004 para cada hora adicional gasta dentro de um carro o risco para uma pessoa tornar-se obesa aumenta em 6%. Contrariamente o risco diminui em 4,8% se caminharmos 1 km a mais por dia.
O meio ambiente urbano também tem sido analisado do ponto de vista social, assim um estudo realizado no Canadá em 2002 considerou a influência de amigos, namorados, membros da família, maridos e esposas quanto ao apoio que estes dão a uma pessoa a eles ligada para que tal pessoa mantenha a prática regular de exercícios físicos seja em academias, clubes um nas horas de lazer.
Verificou-se que as pessoas que se mantinham por mais tempo nos programas de exercícios físicos eram aquelas que possuíam o apoio de amigos, depois os de membros da família e por último os de maridos ou esposas. Conclui-se também que os descendentes de hispânicos tinham maior envolvimento com a prática de exercícios físicos e os de origem saxônica foram os menos ativos.
Este novo olhar sobre a estrutura física das cidades e a relação que seus habitantes possuem com este meio ambiente relacionado a um estilo de vida mais ativo e sob a ótica da prevenção das doenças crônicas e degenerativas pode ser um grande avanço em termos de políticas públicas para se combater os males do sedentarismo e do excesso de peso. Passaríamos assim do atendimento individual para o cuidado com o coletivo.
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